domingo, 28 de junho de 2009

The Whale

Com âncoras de fragata por freios e feixes de arpões como esporas, pudesse eu montar aquela baleia e galgar o mais alto firmamento, para ver se os céus de fábula, com suas tendas incontáveis, realmente acampam além de minha vista mortal!

...

Ide ao mercado de carne num sábado à noite e vede as chusmas de bípedes vivos olhando as longas fileiras de quadrúpedes mortos. Tal espetáculo não acorda o canibal? Canibal? quem não é canibal? Digo-vos que será mais tolerável o Dia do Juízo para o fidjiano que salgou um missionário magro na despensa, para prevenir-se contra uma fome à vista, do que para ti, meu civilizado e esclarecido guloso, que prendes os gansos ao chão e regalas-te com seus fígados inchados em teu pâté de foi gras.

- MOBY DICK

terça-feira, 16 de junho de 2009

Crônica das memórias de Minas




Ai, que saudade daquele tempo em que a gente morria de amor e não de atropelamento... Ai, que saudade do contento de um bolo fumegante de fubá, simplório e realista, que agradava qualquer paladar! Aquilo sim, calava os subúrbios escuros da mente da criança chorosa que acabara de tomar um sopapo estúpido do velho que fedia a álcool e a suor.Tomávamos muito café desde pequenos, aquele cheiro vinha com o brinde de um beijo de avó, que parece pedir perdão ao neto pela pecado de seu filho triste e bruto.
Os cães cegos da rua Álvares de Azevedo cheiravam o chão à procura de restos de lixo com os ouvidos atentos aos automóveis velhos que por vezes passavam rente às suas silhuetas magras. Os vizinhos escaldavam os gatos, belas criaturas que passeavam nos telhados, que morriam nus, sem pêlo, com as retinas opacas e as bocas abertas como que em sede.
Odiava quando minha mãe metia a tesoura no meu cabelo, logo um cabelo tão delicado, castanho e fino que escorria na face, caía pelo chão, podada, a única e suave determinante da identidade feminina da criança. Talvez por isso eu gostasse tanto daquele vestidinho vermelho (e único) e da sapatilhas gastas de correr.
Nada era melhor que estojo novo de canetinhas coloridas e o cheiro do papel recém saído do Xerox para a mesa da sala de aula. Quem tinha fome, não reclamava da canjica da Dona Tereza, cozinheira da cantina, mãe de muitas bocas, e de outras suas, noturnas, que mal alimentava em sua casa. Minha mãe era professora, e eu era igual a todas as crianças.
Cachorro, galinha, marreco, vaca e cavalo. Férias nos cafundós do pobre Judas, móveis coloniais com couro gasto, à noite telas de mosquiteiros e som de radinho à pilha, eu escovava os dentes com a escova da minha prima que sabia tudo sobre os bichos e as proezas da natureza com seus olhos profundos acostumados ao silêncio bucólico.
Presente muito caro de tia era a medalhinha finíssima de Nossa Senhora folheada a ouro. Os três reis magos entrando com violas adornadas com fitas coloridas e flores na casa da avó materna religiosa, prendas ,orações e comida farta, ninguém conseguiu explicar até hoje aquele cheiro forte de rosas quando a imagem da Nossa Senhora da rosa Mística foi levada ao centro da sala da matriarca, viúva quando ainda nova, com a prole de onze filhos. Dizia ser a sua santa protetora.
Retalhos macios unidos num cozer perfeito de coloridos geométricos, colcha que dava sono pelo seu cheiro de limpeza, já tantas vezes lavada, e pelo cheiro familiar próprio das coisas que se compartilham numa casa de família grande. Todos os meus primos eram meus irmão, e eram tantos os filhos, que todos os adultos eram pais e mães de todos nós e, como apanhava-se menos dos pais dos outros do que dos nossos, aprontávamos em dobro.
(continua...)

domingo, 10 de maio de 2009

Sabbath!

hoje mesmo, algumas horas atrás, assisti à um excelente show da banda Heaven & Hell. Os músicos, ex-black sabbath, já possuem certa idade (60 e uns quebrado)mas não perderam a produtividade criativa ou o esmero técnico. Os solos de Tony Iommi estão mais rápidos e tão feelinzudos quanto na época aurea do Sabbath e sua pegada evoluiu para um estilo mais moderno e vivaz. Geezer Butler ainda passeia pelo braço de seu baixo com facilidade, dobrando os riffs e intercalando fills e levadas. Dio, apesar de sua aparencia de duende medieval, tem um vocal gigantesco, tremendamente poderoso. Vinny Appice segura tudo junto na batera, mantendo o ritmo como ninguém.
É verdade que nunca teremos mais clássicos inovadores como "snowblind" ou "war pigs", mas essa nova reencarnação dos mestres maiores do rock pesado pode ainda produzir algumas pérolas dignas dos anais do rock.

enquanto isso, olhemos um sample do cd recém lançado da banda, "The Devil you Know":


Bible Black
http://www.youtube.com/watch?v=JRBs5p0XCEQ

e também a banda em ação, ao vivo anos atrás
http://www.youtube.com/watch?v=NUJH7y1yK_E
o poder e o feeling da banda perduram até os dias de hoje

ps: set list aproximado do show Bh maio 10 2009

the mob rules
children of the sea
i
bible black
time machine
follow the tears
falling of the edge of the world
double the pain
fear
die young
[solo de batera]
heaven and hell
country girl
neon nights

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Bacon: the Other White Heat

Fantástico o que os nerds podem fazer...

Essa é pra você , Cráudio

You know bacon is delicious, but did you know it contains enough energy to melt metal?







http://www.popsci.com/bacon

sexta-feira, 3 de abril de 2009

take five

o mesmo acorde se repete.
escuto a mesma música todos os dias... ressonam terríveis suas melodias assombradas, demasiadamente familiares e grotestcas.
olho pra pinga.
o copo reflete ela pra mim-
-parece relação de amor.
contato boca-a-boca-
- eita, que horror!

mais um gole, mais um esquecimento que compõe um conjunto de lembranças; mais um calor que preenche o frio vazio e mortiço que pousa como neblina sobre minha embriaguez.

hoje conversei com minha avó- ela me disse que queria ser lixeira e prostituta. me orgulho dela.

senti tesão por uma mina sapatona- ela tinha um vestido xadrex.

estou ficando cansado de novo. a estrada nunca termina.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Poema de Manoel de Barros (para quem ainda não conhece o autor)

Mundo Pequeno

(do livro "O Livro das Ignorãças")


I

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.


I I

Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.


I V

Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma
voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
tinha boca mesmo. "Sonora voz de uma concha",
ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: "Aromas de tomilhos dementam
cigarras." Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.
Me disse em Língua-pássaro: "Anhumas premunem
mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer".
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
"Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos." Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.


VI

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.


VI

Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das
lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou
de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.

Manoel de Barros

Manoel de Barros nasceu no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá em 1916. Mudou-se para Corumbá, onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense. Atualmente mora em Campo Grande. É advogado, fazendeiro e poeta. Escreveu seu primeiro poema aos 19 anos, mas sua revelação poética ocorreu aos 13 anos de idade quando ainda estudava no Colégio São José dos Irmãos Maristas, Rio de Janeiro. Autor de várias obras pelas quais recebeu prêmios como o "Prêmio Orlando Dantas" em 1960, conferido pela Academia Brasileira de Letras ao livro "Compêndio para Uso dos Pássaros". Em 1969 recebeu o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pela obra "Gramática Expositiva do Chão" e, em 1997 o "Livro Sobre Nada" recebeu um prêmio de âmbito nacional.
(Fonte: Fundação Manoel de Barros)

Zelig



Desabafo desembestado e mal escrito...



Agora eu vou sair de trás do filósofo e falar a verdade:
Eu era feliz quando não achava que precisava comprar um carro;
Eu era feliz, quando acreditava na arte que eu fazia, e já não faço;
Era feliz quando tinha mais amigos envolvidos com arte e não com o emprego público;
Eu era feliz quando saía com estes amigos com15 reais e bebia pra cacete no bar do Brás;
Eu era feliz quando não me importava de não ter celular;
Era feliz quando não me importava tanto com a minha aparência;
Quando eu não tinha medo de envelhecer;
Eu era feliz quando tinha medo de morrer, tinha medo porque eu era feliz;
Eu era feliz quando não tomava tantos anti-depressivos.
Agora o mundo me engoliu, está me digerindo no estômago pútrido da Capital Federal onde multidões de Zeligs estão atormentando minha existência.
Afinal quem são vocês, Zeligs? Peace and love o cacete... De tanto se moldar, se adequar a verve e a inteligência vão esvaindo. Eu me assusto com a rapidez com que as pessoas mudam de opinião, de gosto, de caráter, de humor. Zeligs loucos, depravação de personalidade, sem o "charme" de perdedor bem-humorado de Woody Allen!
Eu preciso sair dessa cidade e viver meu sonho que soa tão estúpido aos ouvidos de quem não quer ouvir.
Será que as pessoas estão tão destituídas de senso crítico, de critérios para barrar o ridículo de suas vidas, que a má mídia e a opinião alheia (alheia à tudo) influenciem tanto seu comportamento?
Cada vez mais as propagandas me causam terror. O apelo sexual, o apelo ao humor grotesco e à supremacia da imbecilidade onde tem gente (juro que não é exagero) que se encantam pela proposta de propagandas que afirmam que carro é chamariz de top model , que o álcool tem papel de inclusor social e iogurte pra prisão de ventre trás uma felicidade contagiante para as mulheres.
Você é o seu celular, seu carro, a marca da sua roupa, seu piercing, seu cargo. Você acha que você é isso? Eu não.
Que bosta de vida é essa?
Eu não quero um apartamento em Águas Claras, não quero me matar pra comprar um carro do ano, não quero gasolina, etiqueta, restaurante, moda, aliança, filhos, celular, carteira assinada, reputação, reconhecimento, gratidão, Domingão do Faustão, manicure, pedicure, terapeuta, internet wireless, etc...
Eu voltei para essa droga de cidade para tentar estudar, arrumar um estágio e pagar uma quit. Não consegui arrumar um estágio, nem emprego e por conseqüência, fiquei sem a quit.
Pode me chamar de perdedora, foda-se. Não dá para ter uma vida simples em Brasília, é preciso muito dinheiro pra tudo. Levava uma vida simples, me fodi por causa disso, não me adaptei. Sou ambiciosa, mas as minhas ambições são outras, o dinheiro deveria ser conseqüência dessas conquistas.
Eu sou egoísta mesmo, quero fazer o que eu gosto, trabalhar no que eu quero, se não der, trabalhar por um ganho justo já que teria de fazer o que eu não gosto, nunca deixar de estudar, morar com meus amigos em Minas, em um lugar onde eu consiga pagar (o convite é tentador), ouvi-los ensaiar suas músicas no “quarto-estúdio”, comer o que tiver, tomar cerveja barata, poder ir andando à pé à padaria, escrever, pintar, ler e estudar canto nas horas livres e ser a pessoa mais feliz deste mundo.
Eu sei o quanto isso pode soar pueril ou imaturo, mas é verdade, a minha verdade, não acredito em verdades absolutas que não sejam as das equações matemáticas..
Estou puta da vida.
A pessoa que amo nem sequer tem a pretensão de algo parecido, tudo deve ter grande segurança e planejamento envolver dinheiro e tempo demais, eu nem sei onde eu entro nesses planos, eu só sei que o tempo não tem preço, que a juventude não volta e a velhice não vai dar troco. Por conta disso, sigo por aqui mesmo tentando transformar tripa de calango em quitute culinário requintado, só não sei até quando vou agüentar.
O tempo é a coisa mais preciosa do mundo, e eu não quero ter essa morte em vida.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Gonzo?

Será que minha historinha abaixo é Gonzo?

Eu, David, contra Golias

            Goiás é uma das regiões mais desenvolvidas do país. Conhecida mundialmente pelo humanismo da população e pela alta capacidade em lidar com a tecnologia moderna. Basta lembrarmos da história do Césio, ocorrido nos anos 80, e do mais recente caso do homem que espancou a mulher com um extintor de incêndio e a arremessou do carro em movimento para logo depois seqüestrar um avião civil e arremessá-lo ao chão em um estacionamento de shopping em Goiânia; tudo isso acompanhado da filha de cinco anos. Sim, ele “suicidou” a filha também. E antes que me esqueça, esse ótimo exemplo de ser - humano se matou para fugir de uma acusação de estupro de um jovem de 13 anos em Aparecida de Goiânia.  

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            Aqui ainda é região de fronteira, área de faroeste onde impera a lei do mais forte. Os locias são pessoas duronas que resolvem seus problemas na bala. Machões que não levam desaforo para casa; e quando levam, tem sempre a coitada da esposa para descarregar a tensão. Mas não se preocupem as feministas, essas mulheres sofridas não guardam rancor. Elas usam os próprios filhos para desopilar os nervos. Mantêm dessa forma o ciclo de violência e barbárie. Tudo fica bem no final.

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Para quem já olhou um mapa, Brasília é um quadradinho no meio de tudo isso. Guardadas as devidas proporções, eles também compartilham dessa lógica.  

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            Um sábado desses estava dirigindo pelo Plano Piloto e rolou uma discussão de trânsito. Dessas discussões que ocorrem todos os dias, nada de mais. O cara estava circulando uma rotatória todo folgado e ocupando a rua inteira. Eu estava com pressa e contornei a lesma pelos flancos. Ele se queimou, e deu uma buzinada. Já lá na frente, meti o braço para fora do carro e levantei o dedo do meio.

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A história terminaria por aí não estivéssemos lidando com um espécime local. Imediatamente começou a me seguir. Vi pelo retrovisor que a esposa do cara estava no banco dos passageiros. Ele deve ter se sentido emasculado na frente da esposa ou algo do tipo quando o mandei tomar... e resolveu fazer uma acareação comigo.

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Não acreditei no que via. O que será que ele queria, me bater, me dar um tiro, conversar civilizadamente sobre nossa desavença automobilística? Não sou idiota e não iria parar descobrir. Acelerei e tentei passar por diversos semáforos. Pensei que eles podiam fechar na cara do meu perseguidor e me dar a chance de escapar. Mas não. Todos eles permaneciam verdes. É impressionante como as vezes parece que as coisas conspiram contra nós. Sempre que tenho pressa os sinais fecham na minha frente, agora que realmente precisava que eles fechassem nada acontecia. 

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Não sabia o que fazer. A cidade não é tão grande ou complexa para eu conseguir despistá-lo em alguma esquina movimentada. Nem esquina Brasília tem. Precisava me livrar da situação; e rápido. Estava lutando pela minha vida e não podia deixar que esse idiota fizesse algo comigo.

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Ainda sem saber o que fazer, continuei seguindo sob perseguição. Até que finalmente apareceu uma oportunidade. Havia um carro de polícia parado em frente a um estacionamento desses de quadras comerciais por onde passam os retornos de pista. Para quem nunca veio ao quadradinho, peço que use a imaginação ou o Google maps; para os que aqui conhecem, me refiro a um daqueles retornos que as quadras comerciais possuem antes de desaguarem na W3, neste caso específico a W3 Norte.

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Vi a polícia e não deu outra, parei o carro logo atrás. A viatura estava em meio a diversos carros parados e, como era sábado de manhã, o trânsito estava um pouco intenso. Se o machão me desse mesmo um tiro, que fosse na presença de um representante das instituições e do poder estabelecido. Que tipo de pessoa leva uma discussão de trânsito para as últimas conseqüências? Racionalizando, eu cheguei à conclusão de que em essência ele era somente um idiota xucro que foi ofendido na frente da esposa e precisava mostrar para ela que ainda tinha colhões. O saco era ele ter escolhido justo a mim para provar a masculinidade.

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Parei o carro bem ao lado do policial. Como havia muitos carros, ou como o Machão não devia estar muito atento, preso em seus sentimentos de vingança, ele não viu o policial. Estacionou o carro do meu lado e saiu. Ele era um armário de grande, se me pegasse certamente não seria difícil remover-me os ossos em um só golpe. Começou a caminhar em minha direção com os olhos vermelhos de raiva. Tive a chance de olhar brevemente sua esposa. Era a companheira ideal para o cara, ele, um boi, tinha casado com uma baleia orca. Sem brincadeira, a mulher era quase tão grande quanto o cara. Nem sei se era preciso tanto alarde para se provar um macho alfa digno daquela cetácea.

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            O policial já percebera que algo estranho estava ocorrendo. O tempo estava acabando, eu tinha que agir rápido. Mas ainda não sabia o que fazer, até que me veio a luz. Foi como se minha vida inteira tivesse passado como um flash em minha mente. Pensei em todos os Janjões, todos os bullies, que cruzaram meu caminho, e resolvi que bastava. Naquele momento, foi minha vez de ficar valente. Era chegada a hora de revidar. Finalmente tinha a chance de testar a supremacia do intelecto sobre a força bruta. Foi minha “Vingança dos Nerds”.

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            Virei para o policial e, em voz bem alta para tanto o cara como sua esposa escutarem, disse o seguinte:

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            - Oi policial, eu preciso de sua ajuda. É que eu e aquele cara tivemos agora mesmo uma daquelas discussões de trânsito que não levam a nada e eu acabei mostrando o dedo e mandando ele tomar... Não sei o que ele quer comigo, mas acho que deve ter gostado da idéia porque veio me seguindo até aqui. Será que o senhor poderia ir falar para ele que eu não sou veado e não estou interessado. Mas cuidado, viu, que ele é macho e perigoso.

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            Disse isso na maior calma possível e no melhor tom de ironia que consegui produzir. O policial não sabia como proceder. Fiquei com medo de ser baleado ali mesmo. Mas não, saí vitorioso. A oratória foi mais forte que a espada. Ele, que queria me espancar, foi nocauteado sem reação. A esposa olhava tudo descrente. Acho que nunca tinha visto o boi sonso do marido dela levar um fora tão profundo e humilhante. Na mesma hora o machão enfiou o rabo entre as pernas, entrou no carro e foi embora.

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O policial olhou para minha cara e começou a gargalhar. Acho que ele percebeu o que eu tinha acabado de fazer. Rimos juntos em cumplicidade. Foi minha catarse. Afinal, tudo não tinha sido tão calmo e calculado quanto pode parecer agora neste texto. Por uns minutos ali temi pelo que poderia ter acontecido comigo.

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            Agradeci a ajuda do policial. Ainda meio trêmulo, entrei no carro e fui embora. São e salvo. 

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Moral da História:

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            Não estamos mais seguros. Temos que reconhecer que vivemos em um período onde o Império Romano sofre constantes ofensivas e os bárbaros já atacam os portões. Os civilizados devem tomar muito cuidado quando entram em contato com pessoas desconhecidas em espaços públicos. É impossível saber se estmos lidando com um colega cidadão, ou um Ostrogodo com o rei na barriga.

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            Acho que aprendi a não mais discutir no trânsito. Nem todos os motoristas são confiáveis. Dessa vez me safei, mas da próxima pode ocorrer algo muito pior. A partir de agora vou é ficar na minha. Aconselho aos leitores que façam o mesmo. 

quinta-feira, 19 de março de 2009

uma noite na UFMG...

Sento-me para assitir a uma apresentação artística: companhia de música e dança, típica dos ambientes universitários. Uma coisa meio new age misturada com um patriotismo reforçado de tradições negras e indígenas. Tipo de coisa bem interessante (pelo lado temático), mas ao mesmo tempo pedante (por sua execução artística). Teria partido para minha aula, mas alguém, no entanto, me prendeu em fascinação: uma das dançarinas, vestida num leve vestido negro e amarelo.
Suas coxas, firmes e torneadas, pulsam com energia: ora firmes e severas, feitas de nervo e músculo, ora macias e flexíveis como doce de leite. Nunca perdem o ritmo, aquelas pernas maravilhosas, sempre obedecendo à seca batida dos tambores, acompanhando hipnoticamente as batidas da mãe áfrica intercaladas de temperos tupiniquins. Exemplo máximo da beleza feminina, perfeita e explosiva, vibrando com erotismo inato, seus cabelos negros e ondulados rodopiam selvagens por sobre seus ombros. Estampado em sua linda face, firme e feminina, vejo o sorriso: branco como pérolas, singelo e sincero como a exclamação de uma criança. Seu corpo curvilíneo, macio moreno e firme, tem a urgência de um crime.
Gostaria de transmitir a ela tudo isso sem parecer um pervertido ou uma cópia fajuta e nojenta de Vinicius de Moraes. Mas isso, ao que me parece, está fora de meu limitado alcance... portanto, contento-me em levantar e a atirar àquele magnífico par de coxas um último olhar luxurioso.

Ai ai, agora pra aula de Alemão...

sábado, 14 de março de 2009

smokestack lightnin'

o trem no qual eu viajo tem treze vagões.
quando passam trovejando por cima dos trilhos,
- relâmpado de fumaça brilhando que nem ouro.

vou te dizer, meu bem, do trem no qual eu viajo
escutam-se os lobos uivando, respondendo:
- relâmpago de fumaça brilhando que nem ouro.

pare seu trem e deixe um pobre garoto subir,
me escute chorando, uivando, clamando!
- relâmpago de fumaça brilhando que nem ouro...

...a noite toda.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Aniversariante da semana






أسامة بن محمد بن عود بن لادن




Usāmah Bin Mühammad bin 'Awæd bin Lādin (10 de Março de 1957),
Vulgo Osama bin Laden! O primo carismático de Caetano veloso!
Parabéns para o terrorista saudita!

O que o carnaval fez comigo (efeito a longo prazo) - porque a farofada continua...

Mais um texto escrito porcamente, meio sem vontade, quase sem sentido.

O sol escaldante da capital não colabora.
Vida afora vão surgindo ao passar do tempo e ao decorrer do caminho, andarilhos letrados, perdas, poucos amigos, vendedores ambulantes de livros, bardos maconheiros de pracinha e arlequins com a fantasia em farrapos batendo nas janelas dos carros.
Passou o carnaval, a carne continua a ser servida ainda bem crua, bem batida pelos tambores do samba, cada vez mais barata e com muito esteróide, para se devorar e comemorar a indigestão no 8 de março e comprar rosas para as donas de casa de cabelos engordurados.
O mais tem feito parte de mim além de um desgosto imenso por tudo que passa aos olhos dos outros como mera paisagem. Meu tédio continua o mesmo, mas o amargo da boca não sai nem com beijo de namorado.
Vou encarnar o pai dos Karamázov, vou bater na cara dessa gente sem luva de pelica, que essa gente está com os miolos cozidos pelo sol da savana enraivecida.
Na madrugada de quinta-feira surtei e, com uma obra de arte moderna entalhada no braço esquerdo fui passear no pronto-socorro onde uma CARDIOLOGISTA sorridente me aplicou diazepan na veia - não consegui dormir.
Volto para casa de manhã, caio na cama semim-morta, sem lapejo algum de um sonho qualquer que visitasse os confins de meu cérebro a fim de jogar fora um pouco do lixo decadente guardado no meu inconsciente. Sexta-feira de merda, nem para conseguir pegar em um livro...
Sábado à noite, piscina cheia de jovens alegres e bronzeados, escutando “música” de trio elétrico do carnaval baiano (puta que os pariu) a pedido das visitas das amigas da irmã do dono da festa, o Zé, um amigo meu, metaleiro rabiscado de tatuagem que entrou na onda pra pegar uma das moçoilas adeptas do uso indiscriminado de abadás ( roupa típica dos rituais primitivos de acasalamento dos carnavais brasilienses).
Ainda me convidam pra essa merda? Bom, era a casa do Zé, fazer o que... pelo menos ele cozinha muito bem.
Tomei uns quatro copos cheios de mojitos bem calibrados de run , fiquei obviamente embriagada e, mais tardar, de dentro de um banheiro de motel, sentada na beira da privada, mandei uma mensagem ridícula às tantas da manhã para o celular do Andarilho. Sem resposta nem comentários na semana seguinte, prefiro pensar que mensagem nem foi recebida...
Já o domingo, um pouco mais tranqüilo, teve sua noite abafada regada a gin com tônica, muito recomendável pelo preço acessível e pelo fato da bebida feita à base de cereais e Zimbro, criada nos Países Baixos no século XVII, primeiramente, com o propósito de apaziguar os males da peste negra.

pensamentos análogos

“Arranjos monógamos são satisfatórios para aqueles mentalmente preparados para aceita-los e deles tirarem nutrição, mas causam apenas privação para aqueles que não se satisfazem com um só parceiro. E privação gera fantasias... comecei então rondas noturnas, passando pelos butecos mais sórdidos, caminhando as ruas na madrugada, fazendo amizade com as damas da noite e comprando doses para outros solitários companheiros, chapados de falsa familiaridade”.


“As noites me davam uma prova da liberdade da qual eu sentia tanta falta, e rapidamente viraram um vício necessário para opor à opaca respeitabilidade diurna. Após a meia-noite, quando me esgueirava para fora de meu apartamento e caía pro centro, as ruas estavam desertas, mas, uma vez no território certo, eu podia ver a população noturna fazer sua aparição: putas em suas fantasias provocativas (mulheres trabalhadoras desacostumadas a maquiagem fazendo um bico para arranjar um dinheiro extra), bêbados e mendigos emporcalhados indo de boteco em boteco, engraxates de rua encolhidos nos seus cantos, trabalhadores estupidificados de fatiga e cachaça, pervertidos, travestis, policiais vagando em suas viaturas, e vagabundos como eu. Éramos personagens numa peça sórdida... mas pelo menos havia vida, com toda sua hostilidade, libertada de boas maneiras e inibições, e eu podia deslizar de lugar em lugar, absorvendo tudo sem me envolver com particularidades grudentas.”


- - retirado de "Pieces of a Decade: 1970-79 (a decade in Brazil)" por Thomas LaBorie Burns. traduzido por Claudio Lott.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Strawberry Fields Forever - Musical "Across The Universe"

Tudo ao som do Fab Four

A narrativa entrecortada e irregular do musical se trata basicamentede um grupo de jovens que navegam em um mundo de psicodelismo em meio a protestos, todos com nomes alusivos às músicas do Beatles. A diretora Julie Taymor usa músicas dos Beatles para conduzir "Across the universe" ( veja o trailer no You Tube ), um musical jovem ambientado na América dos anos 60.
Jude (Jim Sturgess) trabalhador das docas de Liverpool vai para a América atrás do pai, um soldado americano que engravidou a mãe durante a guerra e sumiu. Ele o encontra como zelador na universidade de Princeton, Nova Jersey, onde também conhece o estudante revoltadinho Max (Joe Anderson), com quem vai para Nova York batalhar a vida, e a irmã dele Lucy (Evan Rachel Wood) por quem se apaixona quando ela também vai para a Big Apple. Sucedem-se protestos estudantis contra a guerra do Vietnam ao som de "Helter skelter", a convocação de Max para o Exército ao som de "I want you" com um cartaz do Tio Sam ganhando vida e apontado para ele e um grupo de jovens carregando a estátua da liberdade numa desolada paisagem vietnamita.
Não sou fã de musicais, são poucos os que que realmente gosto (Hair, The wall, Tommy e Moulin Rouge, estão entre os favoritos). Mas como adoro os Beatles e tenho uma gosto artístico meio "lisérgico", arrisco a dizer que "Across The Universe" é razoavelmente bom e vale a pena conferir.
Ousado, porque os fãs dos Beatles pegam em armas diante de qualquer profanação da obra do Fab Four, fato que lhe rendeu críticas más e revoltadas.
O elenco canta as músicas em interpretações não muito inspiradoras, com exceção de Dana Fuchs, uma cantora de pegada ao melhor estilo Janis Joplin, muito convincente.
O musical conta com a participação de Bono, do o humorista Eddie Izzard interpretando o papel de Mr. Kite e de Joe Cocker que aparece cantando "Come together" e encarnando três personagens ao longo da canção.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Hit the road, Jack!

Meus olhos te procuram, mas não te encontram. Escuto seu riso, forte e sincero, e me sinto feliz, mas é uma felicidade etérea, vaga; uma neblina deslizando sobre a água... não sei como comunicar o que realmente sinto, tenho medo. Já perdi o amor uma vez, não quero jamais espantar a amizade... mas no meu peito, bem lá no fundo, alguma coisa tem que se pronunciar. O gnomozinho do inferno, que traz as chamas incandescentes da paixão, paixão insatisfeita, não correspondida, reprimida, sumida.

Vou pegar o trem para outra cidade, como diziam os velhos bluesmen. Fujo de não sei o que; fujo de todos e de tudo. Tenho que correr, tenho que me entregar a minha grande fraqueza. Parece que não posso mais amar as pessoas que amo... me sinto oco e vazio, incapaz de muita coisa a não ser sentar e esperar a existência passar devagarzinho, arrastando-se de miséria em miséria.

Não sei dizer adeus. Não consigo deixar para trás as pessoas que amo. Acredito que o amor e a amizade não se perdem com a distância física, mas sim com o desleixo emocional. Sinto que logo perderei as pessoas que mais me encantam... pois elas já me abandonaram antes mesmo d’eu partir.

Mesmo assim, amo todos vocês motherfuckers que já me fizeram rir e aproveitar a vida do jeito mais bêbado, porco e sincero possível!

LOVE,

Kréudionôrius


ps:

the road goes ever on and on,
down from the door where it began.
now far ahead the Road has gone,
and I must follow, if i can,
Pursuing it with weary feet,
Until it joins some larger way
Where many paths and errands meet,
and whither then? i cannot say.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Em homenagem à droga do carnaval

Odeio carnaval...
Prometo que vou parar de postar besteiras no blog e voltar a escrever algo que pelo menos lhes valham algumas risadas, talvez isso faça com que o Sordili colabore mais com ele (ou não).
Ah, nosso pobre blog vadio e bossal!
Mas, percam 3 minutos de suas vidas com esse incrível dominó de cervejas e confiram o que a ociosidade é capaz de engedrar na mente humana.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

MC5 - Motorcity is burning (1973)

gremlins+muddy waters+lsd/cocaina.
oia o naipe dos figura! hehehe

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Matrix Rodando Em Windows (Legendado)

Em homenagem ao meu querido André, apesar de ser um nerd não assumido mas, andar vestido com a camisa do Slackware e do freebsd Linux.

O jeito é virar repórter mesmo...

Colega Andarilho, depois de tomar conhecimento de tamanha decepção em seu emprego público, o jeito é virar repórter mesmo... Logo entenderás o porquê de ser especificamente repórter( e que nos valha nosso curso de jornalismo para ganharmos bravamente nosso quinhão medíocre, trabalhando para a grande mídia ainda mais medíocre e reportar para um público castrado de senso crítico a nossa utopia pessoal de estarmos contribuindo para uma sociedade mais justa!)
Sempre muito pessimista,

Peace and weeds, Dude.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Peso de Papel

O sonho dourado de grande parte das pessoas que conheço é conseguir um emprego público. Pensam em abraçar a vida mítica do serviço governamental.  Querem passar em um concurso e ganhar tubos de dinheiro para viver o resto da existência na bonança inconseqüente coçando as partes intimas. Bom, eu trabalho no serviço público e sempre achei muito vazia toda essa visão.

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Ontem, fui convocado para participar de uma reunião na Presidência da República. Ocorreria no quarto andar do Palácio do Planalto, a mais alta das torres de marfim da institucionalidade brasileira. Estava lá, ombro a ombro com o Poder, acompanhado de diversos Ministros de Estado, destes que vivem na TV falando besteira e achando que convencem alguém. Era minha chance de influenciar as decisões nacionais.

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Pessoalmente, os motivos que me conduziram ao serviço público foram os melhores possíveis. Desde que me lembro de prestar atenção nas coisas políticas, noto a inexistência de um projeto de nação para o Brasil. Parece que ainda não descobrimos à que viemos. Identificava, também, uma escassez na estrutura estatal de trabalhadores engajados. Parecia que todos estavam ali para tirar proveito próprio. Acreditava que meu propósito era buscar o bem comum. Tinha a visão de que poderia fazer a diferença, exercer meu papel na construção de um novo país. Queria resgatar nossa grandeza latente. Tenho essa mania quixotesca de acreditar no potencial das pessoas. Mal sabia eu o quão profundamente estava errado.

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Em essência, a reunião era uma mesa de negociação sindical entre atores do setor sucro-alcooleiro. Para variar, tratava-se de uma briga entre patrões e empregados. Por um momento, me senti novamente em pleno século XX. Presenciava um duelo de metodologias, o bom e velho embate entre o comunitarismo sindicalizado versus capitalismo patronal que comandou toda nossa história recente.

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A sala segregou-se espontaneamente em duas alas de nítido recorte socioeconômico. A diferença estava na cor e estado geral dos dentes e vestimentas. De um lado os patrões, brancos, ricos e bem vestidos; representavam as usinas de São Paulo e Nordeste. Do outro os canavieiros, a mestiçagem deslavada que tinha no evento uma oportunidade de desforra histórica. 

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Não havia diálogo algum entre os participantes. Ocorriam somente intimidações veladas. Enquanto uns empunhavam a ameaça de greve diante do desemprego, outros mencionavam a nova máquina colheitadora que substituiria sei lá quantos trabalhadores manuais. Eram representantes de um Brasil retrogrado e anacrônico. Uma realidade antiga onde grupos oligárquicos de interesse disputavam a ferro e lábia seus desígnios particulares. Fazem parte de um país segregado, povoado por animosidades e ressentimentos.

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Reinava a desconfiança. Encaravam-se de testa franzida e mandíbula cerrada. Os dois grupos faziam questão de se odiar. De tão acostumados, parecem não saber mais agir de outra forma. Atuavam os personagens esperados. Como se este roteiro fizesse parte de sua memória celular de classe. Conflito social, Ato 1. Personagens? Os usineiros, antigos senhores de engenho, vilões notórios de nossa literatura moderna. Os trabalhadores da cana, heróis-povo, eternos mitos das belles lettres. Alguém mais? Sim, o Senhor Ministro Chefe Impávido Colosso; e eu.

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Era uma cena risível. Pareciam crianças de maternal disputando um doce na frente da professora. Precisavam convencer não uns aos outros de que tinham razão, mas sim o Ministro. – Ô Ministro, então, eu disse pra ele que o sindicato tinha exagerado. (...) – Peraí Ministro, os trabalhadores só queriam seus direitos. A professora Maricotinha precisava referendar os argumentos. Estavam todos confortáveis em seus papéis. As crianças briguentas e o Ministro, juiz supremo, divindade onipotente. Representava o Deus-Estado, o Poder, capaz de resolver todos as questões com um simples rabisco de caneta.

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Ninguém assumia a responsabilidade por suas ações. Chafurdavam em um poço de picuinha. Tinham um problema prático em pauta que se recusavam a resolver. Queriam abraçar o mundo, devorar todas suas possibilidades. O trágico é que no final todo ônus recaia sobre o governo. As demandas seriam sustentadas com dinheiro público, fruto de nosso trabalho subtraído pela máquina Leviatã. – Precisa de treinamento? – O sindicato não quer fazer? – Os patrões estão sofrendo com a crise? – Tudo bem, o Governo paga. Faziam a opção pelo retrocesso. Naquela sala éramos todos atores de uma peça datada.

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Terminado o encontro, noto uma plaquinha dependurada na porta. Dizia: “O assunto desta reunião é sigiloso”. Sigiloso estava escrito em negrito vermelho bem forte. Sentado em resignação rebelde, respirando o ar rarefeito do Poder no cume político do país, tenho um breve momento de epifania. Penso como tudo o que esta placa representa é diametralmente contrario ao que acredito e desejo para minha vida e meu país. Precisamos divulgar, não esconder. Tenho vontade de arrancar do pescoço a forca-gravata, chutar a janela e bradar Independência.

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Esta reunião foi possivelmente o evento mais inútil que participei em toda minha breve carreira de servidão pública. O ponto baixo de uma longa série de decepções.

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Fora ao Palácio do Planalto para representar meu chefe. O e-mail de convocação estava claro: “Tendo em vista a impossibilidade de o Secretário participar deste compromisso, ele solicita que o servidor Andarilho vá representando a repartição. Na verdade nesta reunião não haverá fala por parte da repartição. É apenas para se fazer presente e anotar o que for falado.” Traduzindo em miúdos significa, mete um terno, senta lá, cala a boca e tome notas.

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Mas teve algo ainda pior, no mesmo horário do evento, acontecia uma reunião de planejamento estratégico da minha repartição. Eles iam decidir o futuro de nosso trabalho. Dessas discussões só participam os notáveis, os amigos e puxa-sacos mais importantes da chefia, o que se chama aqui em Brasília de Petit Comitê. Obviamente, acabei “incluído fora” dessa.

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Aparentemente não tenho nada a acrescentar à repartição. Minha contribuição reduz-se a meu corpo. Devo ocupar um espaço físico determinado. Basta carregar meus olhos, dentes e sangue e sentar a bunda em uma cadeira. Minha função é a mesma de um objeto de escritório. A briga entre os canavieiros e usineiros era em defesa da força de trabalho. Nem isso tenho. Não deixa de ser cômico o fato de meu melhor emprego até hoje, de longe proporcionar o trabalho mais alienado. Sou um mero peso de papel.

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Descobri amargamente que não há vida no serviço público. Trata-se de um ambiente estéril onde toda criatividade é aniquilada, todo oxigênio poluído. Não acredito que por um breve momento ali, eu realmente me seduzi pelo charme do governo.

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Sempre tive vontade de trabalhar no Itamaraty, achava a vida de diplomata muito atraente. Fui criado para ser cidadão do mundo e uma embaixada parecia ser o lugar ideal para exercer meu lado cosmopolita. Estudei quatro anos como um condenado e nunca passei. No entanto, devo muito ao Instituto Rio Branco, muito do conhecimento que possuo hoje, devo ao período de estudos diplomáticos.

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Com o tempo, comecei a ficar cansado do Mito de Sisífo que é a vida de concurseiro. Resolvi testar minha sorte em outras paragens. Em 2006, meio que por acidente, descobri um concurso exatamente na minha área de formação. Tinha ainda a possibilidade de participar de um esforço de construção de um novo paradigma para o país. Era perfeito demais para ser verdade. Prestei e fui aprovado. É onde trabalho atualmente.

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Às vezes penso que este trampo atual foi uma espécie de prêmio kármico de consolação por não ter passado no Itamaraty. Só não sabia a quantidade de karma negativo que encontraria pelo caminho...

Videos Legais - Tim Burton "Vincent Malloy"

lindo, lindo, lindo!

Videos Legais - Wander Wildner "HIPPIE PUNK RAJNEESH"

Videis Legais - Beck "Cellphone's Dead"

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Criatividade e problemas mentais

Encontrei a notícia lendo o site do Conselho Regional de Psicologia (CRP 01)
http://www.crp-01.org.br/conteudo/noticias/exibir.asp?codigo=113

Mas sua fonte é a Folha on line


Cientistas encontram possível ligação entre criatividade e loucura


Pessoas criativas são muitas vezes tomadas por loucas e isso, talvez, tenha algum fundamento científico. Pesquisadores da Universidade Harvard e da Universidade do Texas, nos EUA, descobriram um elemento comum à criatividade e a desequilíbrios mentais: a maior predisposição a estímulos externos.
Segundo os cientistas, que publicaram seu estudo na edição de setembro da revista "Journal of Personality and Social Psychology", pessoas criativas estão mais receptivas a estímulos externos que as outras. Em doenças como esquizofrenia, essa mesma característica se apresenta em seus estágios iniciais de desenvolvimento.Nos animais e nos seres humanos, existe um mecanismo inconsciente chamado de "inibição latente". Essa faculdade permite ignorar estímulos externos que a vivência desses indivíduos tenha demonstrado serem inúteis ou irrelevantes a suas necessidades.
Por testes psicológicos, os pesquisadores conseguiram demonstrar que as pessoas criativas têm baixos níveis de inibição latente."Isso significa que indivíduos criativos continuam em contato com a informação extra que chega constantemente do meio em que eles estão", diz um dos co-autores do estudo, Jordan Peterson, da Universidade do Texas."Uma pessoa comum classifica um objeto e o esquece, mesmo que esse objeto seja muito mais complexo e interessante do que ela possa perceber. A pessoa criativa, por outro lado, está sempre atenta às novas possibilidades."
Na pesquisa, os cientistas testaram a inibição latente de estudantes da graduação da Universidade Harvard, todos abaixo dos 21 anos e considerados extremamente inteligentes. Os que foram considerados mais criativos eram sete vezes mais sujeitos a apresentar baixos níveis de inibição latente. A baixa inibição latente, associada à criatividade, também está presente em perturbações mentais, como a esquizofrenia, que a apresenta em seus estágios iniciais de desenvolvimento, acompanhada de grande instrospecção, conhecimento místico e experiências religiosas em razão de alterações químicas no cérebro."Os cientistas estudam há muito tempo por que a loucura e a criatividade parecem ligadas.
Parece que níveis baixos de inibição latente e flexibilidade excepcional do pensamento podem predispor a doenças mentais sob algumas condições e a conquistas de criatividade sob outras", afirma Shelley Carson, autora do estudo e palestrante de psicologia da Universidade Harvard."Estamos muito felizes com os resultados desses estudos. Parece que não descobrimos apenas uma das bases da criatividade, mas também nos aproximamos da solução de um antigo mistério: a relação entre a genialidade, a loucura e as portas da percepção", afirma Peterson.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

psicodelia alcoólica

Em conjunto com algum oportuno flashback de LSD, a bebedeira torna-se extremamente interessante, mais tortuosa, sinuosa, esgueirando-se para lugares estranhos. Sensações estranhas. Já dizia Jim Morrison: people are strange...
Essa igreja universal aqui na minha janela, com esse mármore todo, parece um grande pedaço de merda divina, excretada diretamente do Grande Ânus no Céu. Acho vomitar naquele estacionamento especialmente gratificante. Realmente parece que estou espalhando a psicodelia anarquista, pelo menos pras famílias crentes, que, de olhos arregalados perante a cena, passam fingindo que nada vêem. Condizente com sua fé, talvez.

Festa de Inauguração

Para inaugurar a Alcova de Baco, convido todos (colaboradores, leitores, doutores, bacharéis, mendigos, donos de bar, trambiqueiros, etc) para tomarem UM ENORME PORRE DE VINHO, seguido de uma REAVALIAÇÃO PSICODÉLICA de sua vida!

Aproveitem, bêbados de toda a Terra!