segunda-feira, 23 de março de 2009

Gonzo?

Será que minha historinha abaixo é Gonzo?

Eu, David, contra Golias

            Goiás é uma das regiões mais desenvolvidas do país. Conhecida mundialmente pelo humanismo da população e pela alta capacidade em lidar com a tecnologia moderna. Basta lembrarmos da história do Césio, ocorrido nos anos 80, e do mais recente caso do homem que espancou a mulher com um extintor de incêndio e a arremessou do carro em movimento para logo depois seqüestrar um avião civil e arremessá-lo ao chão em um estacionamento de shopping em Goiânia; tudo isso acompanhado da filha de cinco anos. Sim, ele “suicidou” a filha também. E antes que me esqueça, esse ótimo exemplo de ser - humano se matou para fugir de uma acusação de estupro de um jovem de 13 anos em Aparecida de Goiânia.  

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            Aqui ainda é região de fronteira, área de faroeste onde impera a lei do mais forte. Os locias são pessoas duronas que resolvem seus problemas na bala. Machões que não levam desaforo para casa; e quando levam, tem sempre a coitada da esposa para descarregar a tensão. Mas não se preocupem as feministas, essas mulheres sofridas não guardam rancor. Elas usam os próprios filhos para desopilar os nervos. Mantêm dessa forma o ciclo de violência e barbárie. Tudo fica bem no final.

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Para quem já olhou um mapa, Brasília é um quadradinho no meio de tudo isso. Guardadas as devidas proporções, eles também compartilham dessa lógica.  

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            Um sábado desses estava dirigindo pelo Plano Piloto e rolou uma discussão de trânsito. Dessas discussões que ocorrem todos os dias, nada de mais. O cara estava circulando uma rotatória todo folgado e ocupando a rua inteira. Eu estava com pressa e contornei a lesma pelos flancos. Ele se queimou, e deu uma buzinada. Já lá na frente, meti o braço para fora do carro e levantei o dedo do meio.

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A história terminaria por aí não estivéssemos lidando com um espécime local. Imediatamente começou a me seguir. Vi pelo retrovisor que a esposa do cara estava no banco dos passageiros. Ele deve ter se sentido emasculado na frente da esposa ou algo do tipo quando o mandei tomar... e resolveu fazer uma acareação comigo.

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Não acreditei no que via. O que será que ele queria, me bater, me dar um tiro, conversar civilizadamente sobre nossa desavença automobilística? Não sou idiota e não iria parar descobrir. Acelerei e tentei passar por diversos semáforos. Pensei que eles podiam fechar na cara do meu perseguidor e me dar a chance de escapar. Mas não. Todos eles permaneciam verdes. É impressionante como as vezes parece que as coisas conspiram contra nós. Sempre que tenho pressa os sinais fecham na minha frente, agora que realmente precisava que eles fechassem nada acontecia. 

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Não sabia o que fazer. A cidade não é tão grande ou complexa para eu conseguir despistá-lo em alguma esquina movimentada. Nem esquina Brasília tem. Precisava me livrar da situação; e rápido. Estava lutando pela minha vida e não podia deixar que esse idiota fizesse algo comigo.

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Ainda sem saber o que fazer, continuei seguindo sob perseguição. Até que finalmente apareceu uma oportunidade. Havia um carro de polícia parado em frente a um estacionamento desses de quadras comerciais por onde passam os retornos de pista. Para quem nunca veio ao quadradinho, peço que use a imaginação ou o Google maps; para os que aqui conhecem, me refiro a um daqueles retornos que as quadras comerciais possuem antes de desaguarem na W3, neste caso específico a W3 Norte.

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Vi a polícia e não deu outra, parei o carro logo atrás. A viatura estava em meio a diversos carros parados e, como era sábado de manhã, o trânsito estava um pouco intenso. Se o machão me desse mesmo um tiro, que fosse na presença de um representante das instituições e do poder estabelecido. Que tipo de pessoa leva uma discussão de trânsito para as últimas conseqüências? Racionalizando, eu cheguei à conclusão de que em essência ele era somente um idiota xucro que foi ofendido na frente da esposa e precisava mostrar para ela que ainda tinha colhões. O saco era ele ter escolhido justo a mim para provar a masculinidade.

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Parei o carro bem ao lado do policial. Como havia muitos carros, ou como o Machão não devia estar muito atento, preso em seus sentimentos de vingança, ele não viu o policial. Estacionou o carro do meu lado e saiu. Ele era um armário de grande, se me pegasse certamente não seria difícil remover-me os ossos em um só golpe. Começou a caminhar em minha direção com os olhos vermelhos de raiva. Tive a chance de olhar brevemente sua esposa. Era a companheira ideal para o cara, ele, um boi, tinha casado com uma baleia orca. Sem brincadeira, a mulher era quase tão grande quanto o cara. Nem sei se era preciso tanto alarde para se provar um macho alfa digno daquela cetácea.

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            O policial já percebera que algo estranho estava ocorrendo. O tempo estava acabando, eu tinha que agir rápido. Mas ainda não sabia o que fazer, até que me veio a luz. Foi como se minha vida inteira tivesse passado como um flash em minha mente. Pensei em todos os Janjões, todos os bullies, que cruzaram meu caminho, e resolvi que bastava. Naquele momento, foi minha vez de ficar valente. Era chegada a hora de revidar. Finalmente tinha a chance de testar a supremacia do intelecto sobre a força bruta. Foi minha “Vingança dos Nerds”.

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            Virei para o policial e, em voz bem alta para tanto o cara como sua esposa escutarem, disse o seguinte:

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            - Oi policial, eu preciso de sua ajuda. É que eu e aquele cara tivemos agora mesmo uma daquelas discussões de trânsito que não levam a nada e eu acabei mostrando o dedo e mandando ele tomar... Não sei o que ele quer comigo, mas acho que deve ter gostado da idéia porque veio me seguindo até aqui. Será que o senhor poderia ir falar para ele que eu não sou veado e não estou interessado. Mas cuidado, viu, que ele é macho e perigoso.

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            Disse isso na maior calma possível e no melhor tom de ironia que consegui produzir. O policial não sabia como proceder. Fiquei com medo de ser baleado ali mesmo. Mas não, saí vitorioso. A oratória foi mais forte que a espada. Ele, que queria me espancar, foi nocauteado sem reação. A esposa olhava tudo descrente. Acho que nunca tinha visto o boi sonso do marido dela levar um fora tão profundo e humilhante. Na mesma hora o machão enfiou o rabo entre as pernas, entrou no carro e foi embora.

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O policial olhou para minha cara e começou a gargalhar. Acho que ele percebeu o que eu tinha acabado de fazer. Rimos juntos em cumplicidade. Foi minha catarse. Afinal, tudo não tinha sido tão calmo e calculado quanto pode parecer agora neste texto. Por uns minutos ali temi pelo que poderia ter acontecido comigo.

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            Agradeci a ajuda do policial. Ainda meio trêmulo, entrei no carro e fui embora. São e salvo. 

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Moral da História:

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            Não estamos mais seguros. Temos que reconhecer que vivemos em um período onde o Império Romano sofre constantes ofensivas e os bárbaros já atacam os portões. Os civilizados devem tomar muito cuidado quando entram em contato com pessoas desconhecidas em espaços públicos. É impossível saber se estmos lidando com um colega cidadão, ou um Ostrogodo com o rei na barriga.

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            Acho que aprendi a não mais discutir no trânsito. Nem todos os motoristas são confiáveis. Dessa vez me safei, mas da próxima pode ocorrer algo muito pior. A partir de agora vou é ficar na minha. Aconselho aos leitores que façam o mesmo. 

quinta-feira, 19 de março de 2009

uma noite na UFMG...

Sento-me para assitir a uma apresentação artística: companhia de música e dança, típica dos ambientes universitários. Uma coisa meio new age misturada com um patriotismo reforçado de tradições negras e indígenas. Tipo de coisa bem interessante (pelo lado temático), mas ao mesmo tempo pedante (por sua execução artística). Teria partido para minha aula, mas alguém, no entanto, me prendeu em fascinação: uma das dançarinas, vestida num leve vestido negro e amarelo.
Suas coxas, firmes e torneadas, pulsam com energia: ora firmes e severas, feitas de nervo e músculo, ora macias e flexíveis como doce de leite. Nunca perdem o ritmo, aquelas pernas maravilhosas, sempre obedecendo à seca batida dos tambores, acompanhando hipnoticamente as batidas da mãe áfrica intercaladas de temperos tupiniquins. Exemplo máximo da beleza feminina, perfeita e explosiva, vibrando com erotismo inato, seus cabelos negros e ondulados rodopiam selvagens por sobre seus ombros. Estampado em sua linda face, firme e feminina, vejo o sorriso: branco como pérolas, singelo e sincero como a exclamação de uma criança. Seu corpo curvilíneo, macio moreno e firme, tem a urgência de um crime.
Gostaria de transmitir a ela tudo isso sem parecer um pervertido ou uma cópia fajuta e nojenta de Vinicius de Moraes. Mas isso, ao que me parece, está fora de meu limitado alcance... portanto, contento-me em levantar e a atirar àquele magnífico par de coxas um último olhar luxurioso.

Ai ai, agora pra aula de Alemão...

sábado, 14 de março de 2009

smokestack lightnin'

o trem no qual eu viajo tem treze vagões.
quando passam trovejando por cima dos trilhos,
- relâmpado de fumaça brilhando que nem ouro.

vou te dizer, meu bem, do trem no qual eu viajo
escutam-se os lobos uivando, respondendo:
- relâmpago de fumaça brilhando que nem ouro.

pare seu trem e deixe um pobre garoto subir,
me escute chorando, uivando, clamando!
- relâmpago de fumaça brilhando que nem ouro...

...a noite toda.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Aniversariante da semana






أسامة بن محمد بن عود بن لادن




Usāmah Bin Mühammad bin 'Awæd bin Lādin (10 de Março de 1957),
Vulgo Osama bin Laden! O primo carismático de Caetano veloso!
Parabéns para o terrorista saudita!

O que o carnaval fez comigo (efeito a longo prazo) - porque a farofada continua...

Mais um texto escrito porcamente, meio sem vontade, quase sem sentido.

O sol escaldante da capital não colabora.
Vida afora vão surgindo ao passar do tempo e ao decorrer do caminho, andarilhos letrados, perdas, poucos amigos, vendedores ambulantes de livros, bardos maconheiros de pracinha e arlequins com a fantasia em farrapos batendo nas janelas dos carros.
Passou o carnaval, a carne continua a ser servida ainda bem crua, bem batida pelos tambores do samba, cada vez mais barata e com muito esteróide, para se devorar e comemorar a indigestão no 8 de março e comprar rosas para as donas de casa de cabelos engordurados.
O mais tem feito parte de mim além de um desgosto imenso por tudo que passa aos olhos dos outros como mera paisagem. Meu tédio continua o mesmo, mas o amargo da boca não sai nem com beijo de namorado.
Vou encarnar o pai dos Karamázov, vou bater na cara dessa gente sem luva de pelica, que essa gente está com os miolos cozidos pelo sol da savana enraivecida.
Na madrugada de quinta-feira surtei e, com uma obra de arte moderna entalhada no braço esquerdo fui passear no pronto-socorro onde uma CARDIOLOGISTA sorridente me aplicou diazepan na veia - não consegui dormir.
Volto para casa de manhã, caio na cama semim-morta, sem lapejo algum de um sonho qualquer que visitasse os confins de meu cérebro a fim de jogar fora um pouco do lixo decadente guardado no meu inconsciente. Sexta-feira de merda, nem para conseguir pegar em um livro...
Sábado à noite, piscina cheia de jovens alegres e bronzeados, escutando “música” de trio elétrico do carnaval baiano (puta que os pariu) a pedido das visitas das amigas da irmã do dono da festa, o Zé, um amigo meu, metaleiro rabiscado de tatuagem que entrou na onda pra pegar uma das moçoilas adeptas do uso indiscriminado de abadás ( roupa típica dos rituais primitivos de acasalamento dos carnavais brasilienses).
Ainda me convidam pra essa merda? Bom, era a casa do Zé, fazer o que... pelo menos ele cozinha muito bem.
Tomei uns quatro copos cheios de mojitos bem calibrados de run , fiquei obviamente embriagada e, mais tardar, de dentro de um banheiro de motel, sentada na beira da privada, mandei uma mensagem ridícula às tantas da manhã para o celular do Andarilho. Sem resposta nem comentários na semana seguinte, prefiro pensar que mensagem nem foi recebida...
Já o domingo, um pouco mais tranqüilo, teve sua noite abafada regada a gin com tônica, muito recomendável pelo preço acessível e pelo fato da bebida feita à base de cereais e Zimbro, criada nos Países Baixos no século XVII, primeiramente, com o propósito de apaziguar os males da peste negra.

pensamentos análogos

“Arranjos monógamos são satisfatórios para aqueles mentalmente preparados para aceita-los e deles tirarem nutrição, mas causam apenas privação para aqueles que não se satisfazem com um só parceiro. E privação gera fantasias... comecei então rondas noturnas, passando pelos butecos mais sórdidos, caminhando as ruas na madrugada, fazendo amizade com as damas da noite e comprando doses para outros solitários companheiros, chapados de falsa familiaridade”.


“As noites me davam uma prova da liberdade da qual eu sentia tanta falta, e rapidamente viraram um vício necessário para opor à opaca respeitabilidade diurna. Após a meia-noite, quando me esgueirava para fora de meu apartamento e caía pro centro, as ruas estavam desertas, mas, uma vez no território certo, eu podia ver a população noturna fazer sua aparição: putas em suas fantasias provocativas (mulheres trabalhadoras desacostumadas a maquiagem fazendo um bico para arranjar um dinheiro extra), bêbados e mendigos emporcalhados indo de boteco em boteco, engraxates de rua encolhidos nos seus cantos, trabalhadores estupidificados de fatiga e cachaça, pervertidos, travestis, policiais vagando em suas viaturas, e vagabundos como eu. Éramos personagens numa peça sórdida... mas pelo menos havia vida, com toda sua hostilidade, libertada de boas maneiras e inibições, e eu podia deslizar de lugar em lugar, absorvendo tudo sem me envolver com particularidades grudentas.”


- - retirado de "Pieces of a Decade: 1970-79 (a decade in Brazil)" por Thomas LaBorie Burns. traduzido por Claudio Lott.